Gordura: de vilã estética a “ouro líquido” da medicina regenerativa
Durante muitos anos, a gordura retirada na lipoaspiração era vista apenas como descarte. Algo sem utilidade, associado exclusivamente ao excesso corporal. Mas a medicina mudou bastante nas últimas décadas — e hoje sabemos que o tecido adiposo possui um potencial biológico extremamente interessante.
Atualmente, muitos cirurgiões chamam a gordura de “ouro líquido”. E não é exagero. A gordura removida durante a lipoaspiração pode ser reutilizada em diversas áreas da medicina estética e regenerativa, principalmente para rejuvenescimento.
Curiosamente, algo que antes era considerado apenas um problema estético passou a ser um dos tecidos mais valiosos do próprio corpo.
A grande vantagem é que se trata de um tecido autólogo — ou seja, da própria paciente. Isso significa ausência de rejeição imunológica e ótima integração biológica.
Mas é importante entender: gordura não é apenas “volume”. Ela carrega muito mais do que isso.
Hoje sabemos que o tecido adiposo contém:
fatores de crescimento;
componentes bioativos;
células com potencial regenerativo;
mediadores biológicos que ajudam na qualidade da pele.
E é exatamente por isso que seu uso vem crescendo tanto.
Uma das aplicações mais conhecidas é o enxerto de gordura facial. Nesse caso, a gordura é utilizada para preencher áreas que perderam volume ao longo do envelhecimento.
Com o tempo, o rosto perde:
gordura profunda;
sustentação;
hidratação;
espessura cutânea.
O resultado é um aspecto mais cansado, emagrecido e envelhecido.
A gordura pode então ser utilizada para restaurar essas áreas de maneira mais natural do que muitos preenchedores artificiais. Diferentemente de substâncias sintéticas, ela se comporta como tecido vivo, integrado ao organismo.
Mas talvez uma das aplicações mais interessantes da gordura atualmente não seja o preenchimento — e sim seu uso regenerativo.
É aqui que entra o chamado Nanofat.
O Nanofat não é utilizado principalmente para volumização. Na verdade, ele passa por um processo de refinamento e emulsificação até formar uma fração rica em micropartículas e componentes bioativos.
Esse material pode ser utilizado topicamente após procedimentos como microagulhamento facial profundo.
O objetivo não é “esticar” o rosto artificialmente.
O foco está em:
melhorar qualidade da pele;
estimular regeneração dérmica;
melhorar textura;
melhorar luminosidade;
melhorar espessura cutânea.
Muitas pacientes confundem regeneração com lifting. São coisas diferentes.
Lifting é reposicionamento de tecidos.
Já procedimentos regenerativos buscam melhorar biologicamente a pele.
E isso se tornou uma tendência muito forte da estética moderna:
menos exagero, mais qualidade tecidual.
Aliás, essa talvez seja uma das grandes mudanças da cirurgia estética atual. Antigamente, o foco era apenas tensão e volume. Hoje entendemos que pele bonita não é apenas pele esticada — é pele saudável.
Outro uso extremamente interessante da gordura é no rejuvenescimento das mãos.
As mãos envelhecem bastante. E muitas vezes envelhecem até mais rapidamente do que o rosto.
Com o tempo:
a pele afina;
as veias ficam aparentes;
os tendões se tornam visíveis;
ocorre perda de gordura subcutânea;
a pele enruga e se machuca com mais facilidade.
Isso cria uma discrepância estética curiosa.
A paciente investe muito no rosto:
laser;
bioestimuladores;
cirurgia facial;
skincare;
mas acaba negligenciando as mãos.
E o resultado pode ficar artificial.
Você olha para um rosto extremamente rejuvenescido… e mãos claramente envelhecidas.
O cérebro humano percebe incoerência estética muito rapidamente.
Envelhecer bem não significa parecer artificialmente jovem. Significa envelhecer proporcionalmente.
Por isso, o rejuvenescimento do dorso das mãos cresceu muito nos últimos anos.
Nessa região, utilizamos frequentemente a gordura na forma de Microfat.
O Microfat possui fragmentos um pouco maiores do que o Nanofat e é utilizado principalmente para reposição volumétrica suave.
O procedimento costuma ser:
rápido;
relativamente confortável;
minimamente invasivo;
com baixíssimo índice de complicações.
A gordura ajuda a suavizar:
tendões aparentes;
veias muito marcadas;
aspecto esquelético das mãos.
Além disso, também pode melhorar qualidade cutânea da região.
E tudo isso utilizando o próprio tecido da paciente.
Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes da medicina regenerativa moderna: utilizar recursos do próprio corpo para estimular reparo biológico.
Mas é importante ter equilíbrio e bom senso.
Hoje existe muita romantização e exagero em torno de termos como “células-tronco” e “regeneração”.
Embora o potencial biológico da gordura seja muito interessante, não estamos falando de milagre. Estamos falando de melhora de qualidade tecidual dentro dos limites biológicos do organismo humano.
Outro ponto importante é que, para utilizar gordura, ela precisa ser obtida.
Isso geralmente é feito através de uma pequena lipoaspiração.
Em muitos casos, a paciente já está sendo submetida a uma cirurgia corporal maior, como uma lipoaspiração abdominal ou corporal. Nessas situações, a obtenção da gordura torna-se simples, pois o material já está disponível.
Quando o objetivo é apenas rejuvenescimento facial ou das mãos, pode ser necessária uma micro lipoaspiração para retirada de pequena quantidade de gordura.
Mesmo sendo um procedimento relativamente pequeno, ainda assim trata-se de um ato cirúrgico e exige:
assepsia;
técnica adequada;
ambiente seguro;
seleção correta da paciente.
A tendência de utilizar gordura para fins regenerativos provavelmente continuará crescendo nos próximos anos.
Isso acontece porque existe uma busca cada vez maior por resultados:
naturais;
biológicos;
menos artificiais;
mais coerentes com o envelhecimento saudável.
No fundo, talvez essa seja a principal mudança da estética moderna.
Menos exagero.
Mais qualidade.
Menos transformação artificial.
Mais coerência biológica.
E, curiosamente, um dos maiores aliados desse processo pode ser justamente aquilo que durante décadas as pessoas mais quiseram retirar do corpo: a gordura.
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